domingo, 27 de novembro de 2011

Brasil avalia tornar-se membro do CERN

Paula Rothman, de INFO Online

SÃO PAULO – O Ministro da Ciência e Tecnologia visita amanhã o CERN, Centro Europeu de Pesquisa Nuclear, em mais um passo que pode levar o Brasil a se tornar um país-membro da organização.

Aloísio Mercadante aproveita uma viagem à Europa para o que, segundo a assessoria internacional do MC&T, é uma visita informal. Segundo o planejamento oficial à qual INFO Online teve acesso, às 11h (6h de Brasília), a comitiva do ministério chega ao centro que é referência em pesquisa mundial e, entre outras coisas, responsável pelo LHC – o acelerador de partículas enterrado na fronteira franco-suíça.
Em 2009, o então ministro Sergio Rezende e o diretor-geral do Cern, Rolf-Dieter Heuer, já haviam assinado um protocolo para ampliar as relações de pesquisa entre os cientistas brasileiros e a instituição. Rezende também formou um grupo de trabalho para negociar a entrada do Brasil como membro associado e, em dezembro de 2010, mandou uma carta formalizando o interesse.

No entanto, tornar-se membro não é uma simples decisão científica, uma vez que envolve o pagamento anual de US$10 milhões. “Além disso, quando muda um governo, qualquer negociação têm que ser reavivada”, explica Sergio Novaes, um dos pesquisadores do grupo de trabalho e coordenador do CERN da visita de Mercadante. Professor titular de física da UNESP, Novaes está passando dois meses em um dos mais importantes experimentos do LHC (o CMS). Da Suíça, ele falou sobre a visita do ministro e sobre as conseqüências de o Brasil se juntar à lista dos atuais 20 membros.

INFO Online- Qual é o objetivo da visita?

Sergio Novaes - O ministro Sergio Resende já havia visitado o CERN e conhecido o diretor geral. Dessa vez, como o ministro Mercadante estaria na Europa, o pessoal da agenda dele conseguiu uma visita para reavivar essa intenção do Brasil e ver se a gente retoma a negociação. Eu suponho que esse seja um dos pontos importantes da visita. Quando muda um governo, as coisas têm que ser reavivadas – e nada como um encontro face-a-face para isso.

E o que o ministro irá conhecer no Cern?

A visita dele está organizando para ter contato com algumas áreas que podem ter repercussão imediata em uma interação com o Brasil. Por exemplo, a área de imagens médicas – um campo em que a física de partícula tem muito a contribuir. Também vamos fazer uma apresentação de como o Cern já ajudou o LNLS (Laboratório Nacional de Luz Síncotron) em Campinas e de como ainda pode ajudar. Também iremos mostrar o pessoal que trabalha com eletrônica resistente à radiação. Toda a eletrônica em volta da parte de colisões do acelerador é resistente à radiação – e essa tecnologia é de grande interesse em satélites, aviões caça... Também mostraremos o departamento de transferência de tecnologia do CERN.
É uma inserção do país em um órgão internacional de grande peso – de longe, o maior laboratório científico europeu. Os experimentos aqui são os mais sofisticados, avançados e caros de todo o mundo. Mas, claro, tudo depende de outras ações....

Investimentos?

Sim. Essa é uma iniciativa e é preciso que o governo seja pró-ativo para aproveitar não só a transferência de tecnologia, mas também outros benefícios – como participar de licitações no Cern e investir em um centro tecnológico, um pólo de inovação no Brasil para promover uma interação mais concreta.

Existe também a questão financeira...

Sim. E por isso essa é uma decisão de governo. Decidir se vamos ou não nos associar passa pelo MCeT, passa pelo congresso e tem que estar no orçamento da União. É uma opção de política científica do Brasil se engajar nesse órgão internacional.

E qual é a posição do Cern sobre a entrada do Brasil?

Do lado do Cern, é o mesmo diretor que se mostrou muito interessado com a perspectiva de o Brasil se tornar membro. Eu acredito que do lado do Brasil ainda há o mesmo entusiasmo – ou nem haveria visita.